A CULPA É DO MORFEU

São longas as horas da noite. Por companhia só o luar que adentra por um escaleno semi coberto, clareando de leve o teto de madeira, ressaltando suas linhas paralelas. Conto uma, duas, três…até não enxerga-las mais e então recorro aos infindáveis carneirinhos, em vão. Já ando até sentindo falta do bucolismo, de tudo o que é belo ao amanhecer de um lindo dia e que finda ao anoitecer. Isso parece música de rei, mas é a mais triste realidade. Não é mole virar pra cá e pra lá resistindo a tentação de me tornar noctívaga e cair na balada, porque ai sim quando o morfético do Morfeu resolver abrir seus braços pra essa carcaça podre, vou merecer enxergar o dia clareando.

Arrisco umas canções das décadas de cinquenta e sessenta, canto em voz bem baixa pra não despertar nenhum pernilongo que tenha conseguido dormir antes de mim, e nada. Só consigo piorar as coisas despertando a saudade dos que já dormem o sono eterno…E o tempo passa lentamente, parecendo não se preocupar com meu estado deplorável pela manhã. Penso em ligar para alguém solitário como eu, mas…quem será que estaria acordado e a fim de conversar as três da madrugada.
Pensando bem é melhor contar outros bichos. Estou cansada dos saltitantes carneirinhos, então decido fazer uma nova escolha. Lhamas talvez.

No meio de todo o vazio escuro, escuto os sons da casa, que por incrível que pareça são muitos, de madeiras que estalam a bichos que passeiam pelo telhado. Levanto e caminho pelo vazio a procura de algum anti-alérgico, que por sorte não encontro. Preciso dormir por mim, nem de longe quero um sono químico, me assusta qualquer tipo de dependência. Uma voz longínqua e que parece tão cansada quanto eu me diz, liga a TV e assisti um corujão. Nem a pau Juvenal, eu quero dormir, eu vou conseguir. Volto encenando umas onze horas da noite, como se estivesse começando tudo de novo, dou boa noite à ninguém, me deito na minha melhor posição para uma noite perfeita, e ali fico no mais profundo estado de espera. Espero, espero e espero, enquanto minha mente trabalha a mil por hora, me mostrando projetos novos,, tentando me convencer sobre algumas mudanças radicais, passando cenas misturadas a centenas de rostos dos quais nem sequer me lembro de quem são. Uma verdadeira orgia cerebral, interrompida por um galo que me anuncia as exatas cinco horas da manhã.

Primeiro um momento de desespero, seguido de uma certa satisfação de acabar o pesadelo, enquanto lá fora o dia começa a clarear, lindo e prometendo um sol escaldante. Em meio a centenas de pássaros cantantes, me levanto empolgada, deixando pra trás minha masmorra desarrumada e saio pra contemplar a vida.
AF

2 Replies

  • Georgina Marinho
    Responder

    As vezes tb tenho dificuldade para dormir. É que meu corpo está cansado mas a mente está alerta. Coisas da idade…como gosto exageradamente de organização, busco gavetas pra arrumar ou papéis velhos pra jogar fora….ai mora o perigo….certos papéis trazem recordações..kkkk coisas da idade.

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