AMIGOS DE ALÉM MARES POR TRINTA MINUTOS

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Envelhecer é, ter a certeza de que a cada amanhecer uma nova oportunidade nos é dada e que a velhice não é insípida.
Chegando eu e meu parceiro na parada do ônibus numero um, com destino ao aeroporto de Lisboa, debaixo de um frio de rachar, encontramos vários velhinhos ali sentados que nos sorriram sincronizadamente, eu por desconfiar da ausência de outro turista, tratei de perguntar: os senhores vão para o aeroporto? Resposta imediata pelo que parecia liderar o grupo que somando as aparências juntos, tinham mais de um milênio: “Não…só estamos cá a conversar, aqui não bate vento, este encontro é sagrado todos os finais de tarde, mas ainda faltam alguns. Outros já não virão mais.” Caíram em uma gargalhada daquelas que acompanham as verdades…e eu, que não sabia se ria ou se chorava, me ajeitei em um canto, e fiquei só observando. Pouco tempo depois vim a saber que eram de famílias imigrantes de Angola e todos quando não parentes, eram amigos de infância.
O assunto era futebol. Discutiam a qualidade dos jogadores, e a divergência era fantástica, um defendia como melhor o Pelé, outro o Messi. Passaram por todos, e a grande maioria dos nomes citados eram dos nossos. Em tão pouco tempo vi eleito, o melhor goleiro, o mais bonito gol, o maior brigão (Sériginho Chulapa, eles não te esquecem), e por ai seguiam…demonstrando suas memórias impecáveis. Todos grandes técnicos!
Não resisti e entrei na conversa, para a felicidade daqueles galanteadores quase centenários. Fui logo mostrando minhas fotos com ex jogadores, para o total delírio dos meninos. Não tardou a chegar mais um, que fôra logo interrogado: “deixou tudo limpinho?”, o mesmo deu de ombros sequer se incomodando, mas notando a nossa presença nos olhou, sorriu e disse: “vou limpar o meu túmulo todos os dias”, com o mais puro sotaque luso, e ai que não aguentou fui eu…cai na gargalhada e respondi que ainda havia muito tempo para que se preocupasse com aquilo. Ele completou, “Ora, depois que eu partir, não quero ficar jogado em um lugar feio. Eu mesmo construí meu túmulo, vou lá todos os dias, levo um agrado ao guardador, que é para garantir a sua amizade”.
Tinham pressa de contar suas histórias, quantidades de filhos e netos, foi uma confusão aquela nossa amizade repentina por meia hora.
O numero um chegou, eu disse em poucas palavras o quanto havia sido gratificante aqueles momentos, e me dirigi às escadas.
Não pude entrar naquele ônibus sem antes perguntar o motivo da gargalhada quando falaram sobre os que não vinham mais ao encontro vespertino, à aquele que fez questão de nos acompanhar até a porta.
“Ora, por nada, rimos à toa, apenas para comemorar por ainda estarmos aqui assistindo o tempo passar e esperando a nossa vez chegar, se voltares à Lisboa, cá estaremos para outra prosa”, pausa…”ou não”…sorrimos!
Indagada pelo parceiro sobre o teor da conversa respondi: Nos disseram que a vida é aqui e agora!
AF

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