
Mais uma primavera, ou duas primaveras…afinal nasci em dezenove de setembro, quase estação das flores. Já estou com os dois pés na velhice e morta de medo dessa tirania que quer me proibir dos prazeres que eu sentia na juventude. É quase automático o meu desejo de procurar o que fazer, pra fugir da insipidez da velhice, e não deixar que a cretina da ociosidade se aposse de mim. Mas também desisto naturalmente de outros prazeres que me cobram o viço dos vinte anos. Estou bem na entre-safra, programando um tempo que nem sei ao certo se vai existir, mas no qual insisto em apostar, e no desafio invento arte, cozinho, faxino, descubro o prazer de lavar minhas roupas, trabalho, trabalho e trabalho…amo com mais respeito.
É bem aquela fase em que não entendemos direito se nossa matéria carrega o nosso espírito ou se nosso espírito empurra a nossa matéria, para um tempo de privação das inutilidades à nossa experiência e sabedoria. Não falo de perfeição, longe de mim, briguei, xinguei, esperneei, divorciei, e abri mão de algumas convenções, para arriscar e aventurar o meu lado empreendedor, construtor e executivo. E isso só serviu pra me colocar na eterna ambiguidade entre a culpa e satisfação. Falo sim das dores insuportáveis, das perdas irreparáveis e das histórias que armazenei pra contar. Com sorte um dia terei os cabelos brancos, a minha pele cansada e enrugada pelas marcas da minha jornada, e o lucro de manter o brilho nos meus olhos, minhas mãos firmes e a minha voz, ainda que embargada, fanha e taquarada, narrando meus casos com direito a sonoplastia, que crio para cada trovão.
Brinco, com o jargão de não entrar na terceira idade e sim viver minha segunda adolescência, consciente do retorno a uma certa infância ou quem sabe até às fraldas. Corro de alguns sentimentos que vão chegando sorrateiramente, como o medo de não poder tomar as minhas próprias decisões e da finitude.
Como exercício para manter a ilusão, canto, danço, me aventuro a novas experiências, e amo como adolescente, com direito a chamar alguém tão maduro quanto eu de namorado, visiono quinze ou vinte anos a mais, vivendo a mais pura felicidade, quiça em um bangalô junto ao mar, no maior dolce far niente, regado a bons vinhos, amassando e dando forma à muito barro. Viajar pelos mais longínquos e belos lugares, exercitar uma possível imortalidade nos futuros olhares curiosos dos meus netos, quando das minhas histórias e meus ensinamentos.
A velhice soa descompromisso, é light, permissiva e serena. Uma bonificação da vida, um sentimento misto de meritocracia com o da oportunidade de corrigir minha tragetória e tentar ser melhor. Tempo de liberdade, de tirar o peso das responsabilidades das costas, e deixar fluir, ser só levada, mas não ficar tão velha que não espere que depois de um dia, o sol não nasça outra vez!
AF

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