Vôo a Vela!

image Mil novecentos e oitenta e oito, mochilas prontas, e contagem de tempo, para mais um encontro com a grande família volovelística. Carros prontos, carretas engatadas, planadores empijamados, check list feito. Mais uma etapa do campeonato brasileiro de voo a vela. Planadores. Um planador é um “avião sem motor” de alta performance, desempenho e tecnologia que é rebocado por um avião motorizado até normalmente seiscentos metros de altura e utiliza as forças da natureza (correntes de ar quente ascendentes, que é a mais utilizada) para voar. Voar como um pássaro…em silêncio e curtindo o som do vento. Como se fôssemos alados! Nossa viagem foi de Brasília para Tatuí, no interior de São Paulo. Éramos duas duplas, eu e o Zé, e Sidão com o Chico. Curiosamente fizemos a viagem separados (nunca nos separávamos…), cada um com seu dupla. Talvez tivesse sido melhor eu ter feito a viagem na carreta junto com o Jantar (nome do planador), porque o banco do passageiro, estava quebrado e soldado em noventa graus. Foram quase mil quilômetros, sentada sem direito a reclinar. Mas íamos cantando Bob Dylan, Cat Stevens, ao som de gaita, que o Zé mal aprendeu tocar, lá no Canadá. E isso encurtou bastante o tempo. Zé era um arquiteto, muito culto e habilidoso, que punha as idéias no papel, em seguida viravam projetos, que ele construía em momentos de folga em sua oficina particular, que diga-se de passagem, era mais organizada do que todas as cozinhas que eu já conheci. Queríamos muito chegar logo, e a única parada foi para comer peixe frito no posto do Japão, lá no Triângulo Mineiro, fora as abastecidas com direito a cinco minutos para o banheiro. Era um belo entardecer, quando chegamos ao Aeroclube de Tatuí, deserto, fomos os primeiros a chegar, muito cansados e necessitados de um banho. Ninguém para informar onde deixaríamos a nossa carreta, e a nossa urgência em encontrar um hotel, era extrema. A luminosidade já estava mais para o lusco-fusco, quando percebemos que um dos hangares estava aberto. Um raro momento de alívio! Fomos recebidos por um piloto, que logo se prontificou com toalhas e chuveiro quente! Renasci. Ao piloto Naná, minha eterna gratidão. Dias intensos viriam pela frente. E foi chegando mais uma carreta e outra, depois mais outra, e nas placas, podíamos ler nomes das mais diversas cidades de todos os cantos do Brasil. Estava pronta a festa, a nossa e da cidade de Tatuí também. Era como festa de peão de boiadeiro, vinha gente de toda a região, conhecer o “avião sem motor”. Depois de muitos abraços e reencontros, o merecido sono, para então acordar ainda na madrugada e começar as operações. No primeiro briefing, uma agradável surpresa. A presença do Amyr Klink, fazendo a meteorologia para as provas. Que maravilha, contar com um navegador que ficou conhecido por ter feito viagens ao redor do mundo. Nada seria mais perfeito. E a informação, de que a abertura oficial seria naquela noite, com a presença do Sr prefeito, que teve a pachorra de dizer na hora do seu discurso, que era uma honra receber tantos “Volovelóides” em sua cidade! Será que ele misturou volovelismo com algo ligado a excepcionalidade? Sei lá, só queríamos trabalhar, limpar os planadores, não deixar sequer uma cáca de mosquito, para não dar arrasto, lastrear suas asas com bastante agua, e colocar seus pijamas, para na manhã seguinte, desfilá-los pela pista de grama, até o momento de decolagem. Era bonito de ver, todos ali enfileirados, e outros vindo empurrados. O nosso contava com uma engenhoca feita pelo Zé, que facilitava o traslado. Eram na verdade, rodas de bicicletas adaptadas, o que nos livrava de ter que carregar as pontas das asas. Um mais lindo que o outro e separados por classe A e B. E eu babando nos de altíssima performance. Ficavam lindos mesmo, depois da decolagem, formando um grande paliteiro no céu, até que fosse dada a largada. E ai estava nas mãos de Deus, e na habilidade de cada um em perceber as melhores térmicas e conseguir concluir a prova, sem que precisasse pousar fora. Era o tempo melar e lá iam os resgates atrás dos planadores pousados, em campos arados, pistas de fazendas, ou até em estradas vazias. Em dia de bom tempo e provas concluídas, era bonito de ver o povo feliz na beirada da pista, quando da volta dos planadores, fazendo voos razantes, e abrindo o lastro de agua das asas sobre as cabeças. Campeões definidos, por tempo e precisão das fotos nos pontos de virada.
Melhor do que vencer, era estar ali, dias, curtindo a grande família, era rever os amigos e ouvir suas histórias, reverenciar nossos velhos alemães protagonistas e mestres sabedores, de que quanto mais ensinavam, mais todos tinham para aprender. Foi no Voo a Vela que aprendi o verdadeiro sentido de amizade e união. Sozinho você não decola, e não vai poder sentir o vento! Tatuí e sua pista de grama, ficou para trás…nós, seguimos de volta mudados, mais experientes. E cada qual, um dia seguiu seu passo para o seu local escolhido. O meu foi bem aqui, somente a cem quilômetros daquela pista de grama. Anos depois!
AF
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2 Replies

  • Sidnei
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    Mais um belo texto.

    Muito legal mesmo!

    Me fez lembrar dos nossos bons, divertidos, muiiiittooo felizes e inesquecíveis tempos do vôo à vela. E dos nossos velhos mestres alemães. “Neblina”, “Seu” Heinz Hendrich, “Seu” Widmer (Pai do “Batata”), Eki Schubert, Joseph Kowacz. Náo sei se vc se lembra, mas neste campeonato eu “dei asa” para o Joseph Kowacz (Que é projetista do Tucano da Embraer) naquele que foi seu último vôo de planador pois, ele se acidentou no seu pouso fora com perda total de seu planador. Ele sobreviveu mas, parou de voar. Embora tudo fosse muito trabalhoso e cansativo, pouco nos incomodávamos porque era também muito divertido toda aquela “faina” diária. Ainda mais em sua companhia e na minha também, evidentemente! Rsss… Parabéns por mais este motivador e apaixonante texto. Como sou muito emotivo e carente, novamente fui às lágrimas, com tantas lembranças e saudades! Realmente, éramos muito felizes e não soubemos valorizar toda esta nossa felicidade e alegria! Você tem se superado a cada dia. Bjs.

  • Arilmey Freitas
    Responder

    Sidão, outra hora conto da viagem Brasília, Palmeira das Missões, AFA, e outras.
    Tempo bom heim! Me lembro sim da asa para o Joseph. Minha grande saudade alemã, é do Gabler, e Heinz. Que bom que vc gostou. Beijos.

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