APELO

image

Sento, e em uma tentativa de maior liberdade escrevo minha manumissão, preciso me libertar de tudo o que ainda me acorrenta. Mas a questão é uma só. Terá validade se eu própria me alforriar?
Digo…eu Arilmey Freitas, que entre os bens livres e desembargados de que sou legítima possuidora e senhora, sou também escrava e devo gozar de liberdade, do dia da minha morte por diante, como se houvesse nascido de ventre livre.
Não. Não dá para lutar capoeira por tanto tempo mais, minhas pernas estão cansadas de tantos golpes no ar. Sou minha Senhora e tenho que encontrar uma forma de me alforriar agora, e parar de arrastar tantas correntes.
Quero a liberdade para intensamente viver ou morrer do jeito que eu desejar.
Por conservar a idéia de que o livre, é aquele que pode agir não sendo forçado por nada ou por ninguém, me sinto escrava. Então busco a liberdade em inscrições no coração da minha necessidade.
Não quero tampões nos meus ouvidos, pra fugir de sons indesejáveis, nem mesmo as concordâncias por conveniência. Não quero sentir o cheiro de perfumes que mais se assimilam ao putrefável, não quero medo em forma de flash, não vou me acostumar a eles. Preciso sim é da liberdade para encarar a maldade, em suas mais variadas manifestações, numa jornada por difusos reinos.
O vicioso e estúpido não terá espaço no meu novo mundo. Meu quilombo terá a porteira fechada aos que ignoram a importância da vida, aos que só procuraram por diversão, mesmo reconhecendo a crueldade, aos que banalizaram a morte. Velarei pelos fracassos e tristezas da natureza humana.
Só peço então para ser livre. Quero me alforriar.
Seria uma boa tentativa, tentar corrigir os erros do passado? Não foram muitos os pecados, mas possivelmente meu nome não conste, em nenhuma página do livro da vida. Ou talvez eu esteja nas primeiras páginas, no lugar destinado aos diferentes (eu sempre fui meio esquisita), sonhadores, românticos, possuidores de idade espiritual retardada…
Amabilidade….fragilidade…nada a declarar. Meu olhar é afimativo.
Meu grande e admirável peito, guardador de milhares de amores, capaz de uma ambiguidade do mais real dos sentimentos, que até parece bruxaria, clama por liberdade. Melhor então do que uma carta de alforria redigida, seria um apelo? Não sei a que parte de mim devo direcioná-lo. Se à minha alma, à minha existência, ou talvez ao meu âmago. Talvez eu diga: não me julgues te suplico! Apenas me liberte!
E de joelhos, cante o cântico da gratidão, sem ao menos saber se atendida serei.
Quem sabe assim, eu experimente a fuga em face dos apelos, que cerrará suas pálpebras à luz da minha vontade, e me fará livre.
O sol faiscará na areia, o mar se debruçará na praia de forma calma e o vento levará tudo o que antes me acorrentara. Sem vestígio de impureza…quero minha alforria!
AF

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *