CAMÁLDOLI – O MOSTEIRO E O EREMITÉRIO DE SÃO ROMUALDO

image

Quando, há quase mil anos, São Romualdo instalou-se com cinco discípulos no Eremitério de Camáldoli, na Itália, estava longe de pensar que aquela pequena instituição se tornaria um centro de oração e de cultura que atravessaria os séculos, estendendo sua irradiação até os dias de hoje.
Ontem em plena tarde de calor intenso, me acerquei da mítica montanha de Camaldoli, de mais de mil metros de altitude, a leste de Florença, percorri
com emoção as ruas do Eremitério de Camáldoli Florença, nos Montes Apeninos, onde se localiza o mosteiro e o eremitério fundados por São Romualdo, no século XI.

Não tenho como não resumir a história de São Romualdo que é simplesmente linda!

Romualdo era filho de Sérgio I, Duque de Ravena, homem da mais alta nobreza medieval, mas mundano e muito agressivo. Não foi, ele, pois, quem ensinou ao menino o caminho da santidade, mas foi o protagonista de um trágico acontecimento que marcou para sempre a vida de seu filho e o fez tomar a resolução de se tornar religioso.
Por volta do ano 972, o Duque Sérgio entrou em duelo com um inimigo, ao que consta, seu próprio irmão, por litígio de terras, matando-o a golpes de espada. E Romualdo, então com 20 anos de idade, foi testemunha da brutal cena.
Vendo o morto estirado ao solo, com as feridas jorrando sangue, e, de outro lado, a fisionomia feroz de seu pai, o jovem percebeu num relance como é horrível o homem que se deixa dominar pelas paixões desregradas. Muito chocado, tomou a decisão de abandonar os vãos prazeres da vida mundana e fazer-se monge.
Partiu, então, à procura da solidão nas montanhas, estimulado pela graça de Deus que lhe sussurrava no fundo da alma: “Felizes os eremitas que se afastam do mundo e se isolam nessas solidões onde não são escravizados pelos maus costumes e pelos maus exemplos!” Encontrando um mosteiro beneditino, pediu para ser recebido ali. O superior, porém, receando uma reação violenta do Duque, hesitou em aceitá-lo. Somente com a intervenção do Arcebispo de Ravena, que serviu de intermediário, o jovem conseguiu ser admitido.
Nesse convento o novo monge passou três anos dedicados à oração e à penitência. Por serem relaxados, os outros religiosos sentiam-se censurados pelo grande fervor do recém-chegado e acabaram por pedir ao superior que o afastasse dali.
Romualdo resolveu, então, ir morar em Veneza, onde passou a levar uma vida de total isolamento. A Divina Providência pôs em seu caminho um eremita rigoroso e sumamente austero, Marino, sob sua influencia ele em pouco tempo fez grandes progressos na via da santidade.
Junto com Marino, Romualdo conseguiu duas notáveis conversões. A do Duque de Ravena, seu próprio pai, que se arrependeu da antiga vida de pecados e foi fazer penitência num convento. E a do Doge (o supremo governante) de Veneza, cidade-república que viria a se tornar uma grande potência.
Numa ensolarada manhã de verão do ano de 978, ouviu-se nessa cidade um brado de alarme: “O Doge desapareceu!” Ninguém sabia do paradeiro de Pietro Urseolo. A notícia causou grande sensação, pois havia apenas dois anos o seu antecessor fora assassinado por conspiradores que destruíram também o Palácio Ducal.
Felizmente, porém, desta vez não se tratava de conspiração nem de homicídio. O nobre fugira à noite, acompanhado de Romualdo, numa longa viagem até o mosteiro beneditino de São Miguel de Cuxa , nos Pirineus, Catalunha, para dedicar-se à oração e à contemplação. Ali morreria como simples monge, após dez anos de vida austera e humilde. Desde 1731, é ele festejado pela Santa Igreja com o glorioso título de São Pedro Urseolo.
Após cinco anos na Catalunha, Romualdo voltou à Itália, percorrendo esse país durante trinta anos, fundando mosteiros e eremitérios.
Desejando levar vida de isolamento completo, recebeu de um certo Maldolus algumas terras, que depois ficaram conhecidas como Campus Maldoli. Por volta de 1025, Romualdo e cinco companheiros construíram ali seis casinhas e uma capela, no meio das rudes montanhas.
Em cada casa vivia um eremita em completo silêncio e isolamento, rezando, meditando, oferecendo sacrifícios pela conversão dos pecadores e pela vinda do Reino de Deus. E assim continuou ao longo dos séculos. Hoje são ao todo vinte casas simples enfileiradas nos dois lados de uma estreita rua, cada uma delas comportando uma exígua capela, uma biblioteca com escrivaninha, uma cama e uma oficina para trabalhos manuais. Todas são desprovidas de conforto, mas muito carregadas de simbolismo e de graças!
Tive por fim, a insigne graça de visitar a casa de São Romualdo, verdadeiro coração dessa obra tão importante para a Igreja e para a sociedade.
E também ver a casa onde viveu por muito tempo São Francisco de Assis. Ela é a primeira a esquerda na ruela.
A pequena distância do eremitério, São Romualdo fez construir um edifício destinado a servir de hospedagem, enfermaria e intendência, a fim de que a vida contemplativa dos eremitas não fosse perturbada por nenhuma preocupação de ordem material.
Hoje, Camaldoli abriga 35 religiosos: 15 no mosteiro e 20 no eremitério. “Não temos lugar para mais ninguém, e o número nunca foi maior do que este”, acrescenta o Pe. Hugo. Hoje os camaldolenses têm comunidades também na Califórnia (Estados Unidos), Banda Aceh (Indonésia) e Mogi das Cruzes (São Paulo, Brasil).
Camaldoli foi a última fundação de São Romualdo. Este homem de Deus, que desde a juventude não tivera outra aspiração senão a de viver isolado em alguma montanha, num íntimo convívio com seu Redentor, acabou levando durante meio século a vida de um “abade-itinerante”. Quando, terminada sua carreira nesta terra, foi receber no Céu a coroa da glória, havia ele reformado ou fundado cerca de 100 mosteiros e eremitérios, com a regra de São Bento, povoando-os de milhares de monges e eremitas encaminhados por ele nas vias da perfeição.
Morreu santamente numa pequena cela do eremitério de Val-di-Castro, no ano de 1027, sendo canonizado em 1595.
A primeira igreja ali erguida pelos eremitas, era inteira de pedra e madeira, depois de sofrer um incêndio que a destruiu fôra demolida e então por volta de 1600, construíram a atual com influência do Art Nouveal e Rococó.
Informações locais e pesquisa foram a minha fonte.
Beijos

image

image

image

image

image

image

image

6 Replies

  • Sandra Maggioni
    Responder

    Linda história. ..emocionante!!!

    • Arilmey Freitas
      Responder

      Sandra é de realmente emocionar. Tenho uma paixão por São Francisco e ver mais de perto a sua história foi muito importante. Beijos

  • Marlene Monturil
    Responder

    Mey, adorei ler essa historia. Estou aqui nas alturas das silenciosas montanhas de Brescia, um lugar ideal para entrar em sintonia com toda essa espiritualidade.
    Vc e’ uma fantastica escritora amiga! Adoro os seus artigos. Bjo grande

  • Alberto Gorou Yamamoto
    Responder

    Que artigo bem escrito! Conciso, mas completo nas informações. Proporciona prazer e alegria à cada linha, á cada estrofe lida. Tive o prazer de me hospedar por uns dias no Mosteiro da Transfiguração em Mogi das Cruzes e agora com esse precioso texto a minha compreensão acerca destes homens que se dedicam à Deus se torna muito mais completa. Muito obrigado!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *