CHALÉCO…

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Em meio a psicodelia setentista, a mistura do erudito com o rock, o Aloha from Hawai, e movimentos individualístas, eu seguia tranquila, sem me preocupar com nossa soberania, ou com a turbulência das manifestações por liberdade e democracia, que na verdade naquela época, não me afetavam em nada. Vivia mesmo em busca de um movimento interno. Queria, era ter idade para ir ao woodstock. Fatalmente teria tido um orgasmo com a voz rouca da Janis e o agudo da guitarra do Hendrix.
Preferia mesmo uma boa música, acompanhar os festivais, e curtir meus amigos, em uma pacata cidade que tem por nome Lins. Eu poderia escrever centenas e centenas de páginas sobre aquela cidade mágica que me marcou tanto em tão pouco tempo. Mas tenho um foco.
Quem bebe daquela agua, jamais será o mesmo. Frustrações, também inspiram poesia, e foi em uma tentativa frustrada de encontrar petróleo, que Lins teve as suas torneiras abastecidas pela Petrobras, com água mineral, termal, alcalina sódica, isotermal, alcalina-bicarbonatada e sendo assim crenoterápica, atribuo a ela de forma reverenciada, o amor. Se banhos esporádicos, fazem bem, então no que nos transformamos, ingerindo e nos banhando diariamente, por horas e horas em plena explosão hormonal? Era de causar um verdadeiro cataclisma, a sensação que conseguíamos em uma troca de olhar, um toque de mãos, e que hoje só é conseguida com os corpos nus.
Misturado à agua, estavam flertes, Caetano, sestas vespertinas, Bee Gees, escola, Bob Dylan, Branca de Neve, Dudu França, ao Lins Progride, e a vida seguia…em slow motion e sonhadora. O tempo passava exatamente como deveria passar, sem pressa…
A pressa sempre foi uma inimiga. Eu odeio a pressa dos Beatles, do Kurt, Elvis, Mercury e todos os ainda me fazem dançar, cantar, amar e sonhar.
Não fosse por uma sessão extra de cinema, bem no meio da semana, eu diria que vivíamos uma rotina que comparada a velocidade da vida de hoje, era quase ponto morto. Meia dúzia de fotos inertes de anunciantes, e seguia uma voz, aveludada, de radialista de interior: “o Cine Lins apresenta”…Irmão Sol, Irmã Lua. Em coro chorávamos com Franco Zeffirelli, sonhávamos em ser a mocinha do Charlton Heston, Sean Connery, Mastroianni naqueles romances apimentados…tão impossível como beijar um dos nossos ídolos das telas, era o 007, usar um telefone sem fio.
Morosa e amorosa, assim era Lins naqueles anos dourados, misturados a efervescência do Dancing Days.
Sob consentimento por bom comportamento, lá ia eu, seguida de olhares vigilantes, dançar, dançar e dançar.
Do lado de fora, no momento red carpet linense, já podíamos sentir o termômetro subindo ao som da Donna Summer, era só o começo do nosso melhor programa.
Não antes de sobreviver ao fuzilante Ezaú, que tudo via mas nem tudo consentia.
Ah! o Chaléco…definitivamente, não era só o lugar onde íamos travoltear, era um templo discoteca, eram os nossos Embalos de Sábado à Noite! Palco para romances clássicos, extravagantes, cafonas e até sensuais/sexuais. Aquela pista não era só para o Travolta, jogando o braço para cima, vestido em um terno de linho branco, era onde aos sábados, nos tornávamos celebridades efêmeras, vestidas a caráter, nos equilibrando em cima das nossas sandálias de verniz, sob jogos maravilhosos de luzes, que faziam acender nossas indumentárias de lurex, bem como o libido dos meninos e meninas. Até Freud supôs essa equivalência. Então arrisco escrever que o Chaléco acendia a chama e o fogo. Dance a little bit closer, e nossos organismos já se viam mobilizados por uma loucura afetiva, perseguidora de sonhos e desejos adolescentes.
Aos nossos olhos alimentados com o mais puro instinto selvagem, aqueles tenros pãezinhos, eram Deuses Gregos, com direito a calças e camisas justas e entreabertas. E não menos equilibristas em seus sapatos carrapetas, suspeitos de terem sido os responsáveis, por muita condromalacia nos nossos adoráveis, hoje…jovens anciãos.
Não me arrisco a transformar seus nomes em verbos, pra não ser injusta, porque de todos não vou lembrar, mas o ficar naquela época era verbalizar. E isso era assunto pra muitas horas de prosa entre as amigas, durante a espera pelo próximo sábado, onde lá estaríamos perfeitos, formando filas e dançando o Hustle, o Bus Stop e Bump, sob o som da discoteca.
Hoje, tanta mistura de nota que só faz sacolejar, dá síndrome de abstinência da luta do Kung Fu Fighting, de procurar a sorte no Zodiac, clamar Got to be real!
Reflections of my life, porque vida sem memória não é vida, porque nesse exato momento escrevendo e ouvindo Venus, sinto o cheiro do que jamais envelhece.
O seu físico, vejo por uma fresta das lembranças…mas serás sempre imortal, para quem não conjuga os verbos amar e dançar no passado.
Quero para sempre discotecar…Chalecar!
AF
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