DETOX NA VIDA

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Eu sempre fui exagerada, consumidora voraz, cheia de badulaques e acessórios pesados. E foi em uma das últimas andadas pelo mundo, sempre com o olhar voltado para a história e a arte, que comecei a perceber que era mais feliz com uma boa mala e suas rodinhas. Exatamente na bela Firenze, hospedada em um pícolo apartamento na Piazza de Santa Maria Novella que descobri, o quanto o minimalismo era muito bom. Eu…acostumada a grandes espaços, e todos os serviços caseiros terceirizados, tive que faxinar, pegar na vassoura e no rodo, lavar banheiro, e ai senti tocar um alerta. Em um primeiro momento pensei que deveria minimizar tudo o que eu possuía, além da minha mala. Muito radical…
Eu, que nunca fui muito fã de livros de auto ajuda, comecei a ver sentido em todos aqueles que me foram indicados , ou presenteados pela vida a fora. A maioria, que nunca sequer havia sido aberto, sem dúvida sairia da prateleira. E os que eu havia lido, caiam feito luvas, para aquele momento de descoberta, do mínimo que eu precisava para ser feliz. Desespero, queria lê-los ali naquele momento, em que lembrava de tudo o quanto havia juntado em uma enorme casa onde vivo. É impressionante, como quanto maior o espaço, mais coisas vamos acumulando. Mais de mil cds, livros e filmes que não serão revistos nem relidos, roupas que não não uso mais, outras ainda com as etiquetas penduradas sem sequer terem sido usadas…uma loucura. Quanto peso nos ombros e na consiência. Sabe aquela revista de decoração, que tem uma matéria legal e a gente guarda pra rever? Nunca aconteceu, e eu tinha pilhas delas, pilhas imperceptíveis em tanto espaço. Voltei com os dois pés em uma bela depressão, que quase me jogou nos braços das tarjas pretas. Depois de quase um ano decidi que deveria mudar tudo isso. Iniciei uma faxina na vida, o que foi extremamente importante, e isso incluiu também, algumas pessoas, que na verdade não acrescentavam nada. Um bom inicio são os papéis, cartões, comprovantes de pagamentos, agendas antigas, revistas e livros; até exemplares de uma certa revista POP da década de setenta eu encontrei. Senhor, como ela sobreviveu a dois divórcios? E os discos…eu precisaria de outro ano interinho fazendo niente, para ouvi-los vinte quatro horas interruptas, e saber quais deles sobreviveu a ação do tempo.
O grande temor, e a hora da verdade foi o closet, me desfazer de tantos jeans, pretinhos básicos, jaquetas de couro, tudo parecia que iria fazer falta em algum momento. Então apelar para os conselhos dos especialistas em organizacão de armários foi fundamental.
Medimos o grau de importância de tudo nas nossas vidas, pelas vezes em que pensamos, tocamos ou usamos algo ou alguém. E ai tudo muda, porque você se encontra de frente com o momento em que terá realmente que decidir, entre o permanecer, jogar fora, doar, ou poupar.
Minha cabeça deu uma reviravolta, era o meu momento de transformação, de repensar o meu trabalho, ciclo de amizades e pertences. Tudo se encaixou, quando resolvi montar um ponto de apoio em São Paulo e me livrar do tráfego intenso da Raposo Tavares. Flexibilizar os horários e praticar mais, tudo o que for relacionado ao espiritual.
Depois de quase meia tonelada retirada das costas, tudo parece muito leve, a casa ficou arejada, no apartamento só o extremamente necessário, e eu…com a sensação de quem levita, e disposta a todo tipo de mudança, sempre que se fizer necessário. Nunca pensei conseguir cuidar dos meus espaços sem me sentir refém de ninguém.
Em tempos de crise, é bom pensar bem, pra não arrepender depois, mas praticar o desapego, faxinar, fazer um detox na vida, provoca uma gostosa sensação de liberdade. Recomeçar me faz feliz. E é assim que eu me sinto hoje.
AF

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