DO HIPNOS AO POMERIGGIO

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Ainda nos braços de Hipnos, ao longe escutei um insistente telefone que, em som rouco me despertou para uma caminhada. Lentamente abri minhas pálpebras e contemplei os tons pastéis das paredes e voais a minha volta, por minutos viajei naquele ambiente principesco.
Me apressei, sonolenta e sofrendo com a diferença do fuso. Um rápido desjejum com receitas sapore di Italia, e parti…
Sob baixa temperatura, e por entre oliveiras milenares, caminhava ao meu lado um destino incerto, um desejo de não sentir medo e a certeza da incerteza.
A manhã cinza, não esboçava a menor intenção de me aquecer, melhor então era apertar o passo mantendo a pashmina sobre o nariz, deixando livre só os olhos…encantados.
Entre as montanhas e o mar, pela pícola strada, seguia…ora em silêncio, ora cantarolando canções do velho e eterno festival de San Remo, nostalgia…passos sincronizados e vigiados por olhares que brotavam das ruínas da escavação, de uma civilização romana.
Ao som do meu quase amargo silêncio, me estranhei por não desejar destino final à minha caminhada. Queria apenas estar em movimento enquanto procurava o caminho do mar Jónico. Alguns prazeres me aguardavam por lá.
Busco o entendimento do por quê, no mesmo azeite extra virgem que uso, para lubrificar minhas engrenagens, mantenho azeitado alguns sonhos e esperanças. E por tanto tempo. Covardia ou medo…ainda não consigo definir. Então caminhava…
Caminhar sempre me causou a sensação de busca incessante. Uma parada…me apresentei à duas oliveiras entrelaçadas há mais de mil anos, contemplei a sua longevidade, com uma ponta de inveja, com grande certeza das chances deixadas para trás…ou não. Certezas que nunca terei. A essa altura nada mais é longevo na minha jornada. Apenas intenso…penso.
Após horas de caminhada, enfim o mar. Uma pequena aldeia de pescadores, muito semelhante aos seus vizinhos Gregos, cheiro bom de maresia e um azul profundo de fazer desejar um mergulho único. Largos e espantados sorrisos, na maioria masculinos ia reciprocando, eram respeitosos e curiosos. Me reconheciam como uma estranha…ou talvez pela minha Brasilidade explícita! O fato é que me sentia muito à vontade, e arriscava meus parcos vocábulos ítalos, e assim conseguia muita empatia.
Um convite inesperado, “venire mangiare il puro gusto del mare”, me aproximei de um grupo de uns quatro, recém chegados do mar traziam, lulas, polvos, lagostas, muitos peixes e camarões imensos. Fiquei de olhos arregalados apreciando a destreza com a qual limpavam e fatiavam o nosso almoço. Usando da própria agua do mar, e sem nenhum tempero. Segui o ritual, que me parecia obrigatório…coloquei meus pedaços na boca, de olhos fechados, enquanto os mastigava, deixava soar um…HUMMMMM, que vinha da alma e que me fazia sentir as ondas em todos os seus movimentos. Em coro.
Findei e agradeci dizendo jamais esquecer aquela experiência, fitando bem a imagem do avô e neto juntos na labuta. Guardei registrado em flashes cada vinco dos seus rostos. Por todos os lados haviam barcos e mais barcos, de um colorido invejável por quaisquer artistas das paletas.
Retomei minha caminhada costeando, até encontrar um lugar ermo, onde pudesse arriscar meu banho secreto. É desafiador o desejo de esperar que o sol se ponha, ali com os pés naquelas aguas geladas Pugliesas.
Chegou o pomeriggio, as aguas se tornaram prateadas, trazendo a lembrança do longo caminho a ser percorrido de volta, e a esperança de, uma bela taça de vinho rosso antes dos voais!
AF

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