ENQUANTO ENGOMO A SAIA

image

 

Enquanto engomo a saia de cambraia, e o vapor sobe dilatando meus poros, observo o horizonte através da janela no nono andar do pequeno apartamento, onde passo alguns dias úteis e de labuta, pra descolar o meu larjan.
Ao fundo o som do Bruce, confunde as minhas idéias, em uma mistura de saudosismo sadio que me faz rir, e uma saudade que dói o peito e me faz chorar!
A essa altura, já conto o meu tempo de dez em dez anos, e percebo que de forma inteligente só guardei na memória os prazeres…as coisas ruins deixei como resíduo, como lixo. Espontaneamente vão surgindo aos poucos, estimuladas por situações, cheiros e toques. Nunca terão a perfeição de um Michelangelo, mas são expressivas, coloridas e de vital importância à ambiguidade dos meus sentimentos, e isso de certa forma parece me manter em equilíbrio.
Definitivamente o meu saudosismo não é irracional estúpido e romântico, daqueles que lamentam e repetidamente ecoam “na minha época!”…
Mas como não lembrar quão lindos eram os anos dourados, dos grandes bailes à rigor lá no Clube Linense, as tardes de dolce far niente debaixo de um coqueiro em Olinda, do agito da praia de Ipanema na década de sessenta, do movimento cabeças em Brasília em pleno movimento do rock nacional! Quase fui hippie!
Também não vou mandar a infame auto ofensa, lamentando o envelhecer, e me intitulando “coroa”! Eu vi os Beatles, o Cat Stevens, o Bob Dylan, rebolei com o Elvis, e chorei ao vivo os cadáveres de jovens do ra ta ta ta ta, ra ta ta ta ta, no Vietnã. Assisti a queda de vários poderes podres e do indecente muro. Isso tudo como prêmio por me manter viva e aprisionando a minha pobre alma. São tantos zettabytes de informações que se torna quase impossível organizá-las de forma exata. O certo mesmo seria montar pastas, dos amigos, das viagens, da família, dos amores e de….ih! desorganizou.
O mundo está muito veloz e moderno, me deixando confusa e na eterna dúvida em querer fazer parte desse movimento. Resisto as vezes, me sentindo cansada e com saudades das coisas mais simples, das minhas vias nasais que respiravam livremente. Já são quase seis décadas de motivos pra eu sentir saudades. Não quero fazer parte da patota que impera a favor do saudosismo, exaltando o antigo e execrando o moderno, mas a minha consciência acusa que o nível atual é mais baixo, Sou só uma amante dos bons sentimentos, dos momentos românticos, do bom café na mariquinha, do chiado do vinil, de rever Casablanca e Dr Jivago.
Não tento me questionar sobre o fato de preferir o disco original ao CD de alta definição, porque vou encontrar a mesma imediata resposta, de que nada hoje é melhor do que antes. Será que sofro de algum mal ou vivo na terra do nunca?
Querem saber? Esse papo é muito longo, então deixo um beijo aos saudosistas. Vou sair por ai a procura de um DeLorean e dar um bordejo no passado. Algum Doctor Brown lendo?
AF

2 Replies

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *