
“Cuidado!! dizem que lá no céu tem moto e você pode estar escalada para o encontro celestial de amanhã”
Esse argumento não convence uma apaixonada por duas rodas. Um bordejo à californiana é como abrir asas e voar, voar, deixando o vento invadir sua alma. O ronco dos motores aceleram as pulsações, o coração fica ritimado, cadenciado, é o contato intimo mais prolongado e prazeroso. A culpa é da danada da endorfina, que encharca o nosso cérebro com essa morfina natural, tornando um start, melhor do que sorvete, mousse de chocolate ou pirulito. Dá o maior barato! Vicia.
Eu sei que é difícil traduzir esse prazer, pra quem nunca pilotou uma máquina com um monte de cavalos te jogando para trás, e a roda da frente saindo do chão, é tão difícil quanto tentar explicar a sensação de um orgasmo, pra quem nunca sentiu um.
Velocidade, superação, concentração extrema. A cada acelerada nas saídas de curva, sentir aquela derrapadinha traseira, e puxar uma imensa tropa de volta pro seu eixo, pra o seu corpo.
Sucessivas experiências emocionais e sensoriais, é o que vivemos com cada novo visual, e em frações de segundos…são apenas flashes que como mágica registram os menores detalhes, para sempre.
Emoções, riscos….nossos corpos, nossas carenagens.
Uma moto não é dirigida, muito menos conduzida. Nós a pilotamos, trocamos de direção instantaneamente, passamos em espaços reduzidíssimos, freiamos e aceleramos em um pequeno espaço de tempo. Haja habilidade e reflexo.
Reflexo para mapear todo o percurso que vamos percorrer nos próximos segundos,
supor num instante, tudo que poderá acontecer nos próximos segundos, planejar e executar uma ação para aquilo o que pode acontecer…em segundos.
Os anos passam, e não são contados, quando conhecemos o equilibrio, quando aceleramos sempre olhando em frente, quando não importa se cairmos, mas sim o fato de depois de cada queda, nós podermos nos levantar e sentir novamente a indescritível liberdade. A vida na mais pura essência, amante, aventureira.
É estar sempre na melhor idade…curtir estrelas iluminando o céu e o caminho, gostar da chuva e reconhecer Deus, na mais alta definição de um pôr do sol.
Nunca será perfeito ter dinheiro, saúde e amor, pra quem tem o espírito livre, que não se aprisiona e quer sempre o extremo. Essa conversa de que se eu pudesse, teria amado mais, sorrido mais, andado descalço na primavera, comido mais lentilha…é para os fracos. A vida é aqui e agora. Sinta o vento. Colida com insetos, aprecie as agulhadas de uma chuva de verão, enxergue bruxas nas madrugadas, colecione mil histórias pra contar para os netos.
Não seja egoísta e imprudente desperdiçando sua alegria e vida, porque não existe tempo, idade e nem hora pra começar. Li certa vez que “Uma moto é, na verdade, uma máquina do tempo disfarçada.” Creio muito.
Cada qual haverá sempre de encontrar a sua receita de felicidade. Sem arrogância nenhuma mas…é um verdadeiro estado de euforia interior, entusiasmo e vibração, com uma espetacular sinfonia do ronco dos seus motores como bonificação à aquele monte de aço soldado entre duas rodas.
Bom mesmo é ver as cores se fundindo, o pontilhado ficando contínuo, caminhos se estreitando, nossos corações batendo forte. E tudo parar…pra felicidade nos alcançar.
AF


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