METRONOVELA – A MINHA! RUMO À MANAUS – parte 2

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O deslizar de um Catalina, era como o colo de uma Ticuna, sacolejante e emocionante. Deslizamos sobre as águas até que o hidroavião decolasse, e depois de um razante sobre tudo e quase nada o que deixamos pra tras…choramos. Eu de fome talvez, não tinha nenhum entendimento.
Minha mãe tremulava o lenço amarrado ao pulso, indicando que partíamos, e meu pai olhava aquela imensidão, como se intencionasse memorizar pra não mais esquecer as aventuras ali vividas, ou ainda tivesse o sentimento de que jamais viveria emoções iguais.
Foi em mil novecentos e cinquenta e seis, que ali chegaram, em grandes embarcações, com famílias e poucos pertences. Certos de viver um grande desafio. Talvez o maior de suas vidas.
Eram gostosas as vezes que nos deitávamos no chão fresco, em tardes de imenso calor pelo Brasil a fora, e ali ficávamos ouvindo infinitas narrações.
Zéquinha, nos contava histórias sobre aquele mundo paralelo, onde seus habitantes, pescavam, caçavam e viviam de escambo. Não sabiam o que era economia, escolas, hospitais. Não poluíam e não contavam as horas. Eram guiados pelas estrelas e tinham o sol e a lua como relógio.
Fascinante mundo natural, de comida farta e sentimentos puros.
Sonhos e amores possíveis e fiéis.
Um mundo onde a natureza gritava de alegria, com seus sons inigualáveis, vindos dos bichos e aves que viviam em perfeita harmonia com os humanos.
Tinham como missão, tomar conta e garantir a soberania nacional por aquele estirão afora. Isso não era fácil, quando falamos de uma grande imensidão de terra e agua. O contingente militar era pequeno, e por isso eram escolhidos a dedo (sempre senti muito orgulho disso), deveríam contar, além de suas armas, com uma sensibilidade aos sons e atitudes, de tudo o que fazia parte daquela imensidão.
Certa vez, com a missão de prender um certo traficante colombiano, montaram patrulhas dia e noite, e foi em uma madrugada que distante perceberam um motor silenciar-se, e a partir de então, descer o rio a favor da correnteza. Não tinham duvidas de que se tratava do tal traficante, que quando abordado, tentou por tudo negociar com os militares, sem nada conseguir. A voz de prisão fôra dada e muitas drogas encontradas em meio a alimentos e muitos tecidos. No espaço de tempo para chegarem às margens do Solimões, Zéquinha percebeu um bebê no colo de uma colombiana, que sequer chorou ou se mexeu em meio a toda aquela balbúrdia. Pediu então que entregasse a criança, que para espanto de todos estava morta com o ventre grosseiramente costurado, no lugar de suas víceras, capsulas de cocaína.
Tínhamos uma Revista Manchete guardada que ganhamos em Manaus com essa notícia na capa por muitos anos, acho que a perdemos em alguma das nossas mudanças, foram muitas. Sobrevivente de várias malárias, tinha seu corpo debilitado, mas ainda assim, Zéquinha sentia saudade das noites de luar, em que formavam rodas junto à fogueira, para tocar o pinho e cantar. Vinham ribeirinhos de distantes lugares se juntar à cantoria. Entre um amigo e outro iam fazendo compadres pela vida a fora. Já não sabiam mais quantos haviam batizado, e nem mesmo casado, sequer lembravam os nomes das crianças, que na maioria das vezes era escolhido pelo Zéquinha. Que adorava um nome exótico.
Contava que certa vez, dera o nome de Maxuell a um menino, causando muito transtorno ao pai da criança, que pobre coitado, andava por longa distância de barco, só pra perguntar, como era mesmo que se pronunciava o nome de seu filho.
Mas gostava mesmo de caçar e pescar. Era exímio pescador usando munição de baixo calibre. Poderíam agregar essa modalidade à algum tipo de competição. Um ponto era escolhido no barranco, e quando o peixe alvo passava, atiravam e mergulhavam para buscá-lo. Zéquinha era um campeão e admirado pelos Ticunas, por sua destreza em pontaria. Pra todos os rituais da tribo eram convidados. Ainda me impressiono, com as fotos em preto e branco, de uma jovem índia, tendo seus cabelos, que nunca haviam sido cortados, arrancados com as mãos de todos que podiam, em meio a uma roda alcançar sua cabeça, quando de sua primeira menstruação. Não o bastante, a coitada era inteira pintada e ficava enclausurada em um certo Turi, por muito tempo.  Chamavam de Festa da Moça Nova. Deviam saber o porque de tudo isso. O que eu sei, foi que herdamos uma certa máscara de espantar maus espíritos, que espantou a mim e minhas irmãs, por longos anos.
Mas espantados mesmo, devia ficar o pelotão de fronteira com tamanha integração homem natureza, daqueles Ticunas. Pindoba além de moquear uma caça como ninguém, era capaz de reconhecer um tronco oco,  cheinho de mel à distância. Logo corria pra chamar o Zéquinha: “bunã papa”! Usavam um dialeto Tupi como idioma.
Continuávamos a sobrevoar um mar verde-intenso de floresta densa, vez ou outra podia se ver um pequeno lugarejo, ou mesmo outras tribos incrustadas naquela vastidão. Se realmente nos tornamos tudo o que vivemos de emocionante, posso culpar aquele voo, pela minha paixão por voar. Entre um razante aqui e um ganho de altura acolá, o Catalina nos levou até uma cidade portuária, para que então continuássemos a nossa saga, em uma grande embarcação, com direito a rede como cama, e o próprio braço como travesseiro, por quase uma semana ainda, tempo bastante para sentir a dor fresca de uma saudade. Rumo à Manaus. Rumo às eternas lembranças!
AF

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Abaixo fotos do meu acervo pessoal.
Meu pai carregando uma tartaruga
Nossa Vila Militar
Indios Ticunas e na sequência, militares e suas esposas no ritual da Moça Nova.

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