METRONOVELA – A MINHA! ESTIRÃO DO EQUADOR – parte 1

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Ação……..
ESTIRÃO DO EQUADOR 1958

Em um amanhecer muito úmido eu nasci.
Como cenário, toda a abundância da natureza Amazônica e como fundo musical, o som do caudaloso Solimóes.
Minha mãe arrisca dizer que era umas cinco horas da manhã, do dia dezenove de setembro de hum mil novecentos e cinquenta e oito, com a ajuda de Índias Ticunas, já que a opção hospitalar mais próxima ficava do outro lado na tríplice fronteira Brasil, Peru e Colômbia, falavam de um hospital em Ramón Castilla no Peru. Na verdade nunca arrisquei um mapa astrológico contando com esse horário. Nunca senti exatidão na afirmação.
Estirão do Equador, esse é o nome do lugar onde vim ao mundo. Lá não existia nada além de militares e uma tribo Ticuna. Eu…até hoje não me conformo de carregar outro logradouro na minha certidão de nascimento.
Naquele tempo a única opção de transporte eram embarcações pelo rio…e a tentativa de travessia frustrada, quando minha mãe entrou em trabalho de parto, da minha irmã mais velha do que eu um ano, fazendo com que ela parisse no meio do rio, em um deslizador…tendo como parteiros, meu pai e um soldado, fez com que eu abrisse meus olhos pela primeira vez em uma Oca.
Ela não esquece um detalhe sequer, e reforça dizendo que terapia nenhuma, jamais a faria esquecer a farra das piranhas, quando o banquete de placenta bateu nas águas do rio. Minha irmã carrega como segundo nome, o de Amazonas, por tradição dos que nascem nas águas dos rios da Amazônia. Como todos os traumas e dores, passam rápido, lá estava eu dando meus primeiros gritos, treze meses depois, nos braços daquelas índias, que também viriam a ser minhas amas de leite, afinal amamentar três filhas, seria uma missão impossível para uma única mãe. Essa foi a dura realidade de quem escolheu uma família onde duas irmãs mais velhas, já sugavam o meu leite. Ou talvez até tenha sido uma responsabilidade imputada por minha mãe às índias, por vingança aos seus ensinamentos frustrados, de como me assassinar ainda no ventre, usando um cipó venenoso, amarrado na perna e introduzido na vagina. Fui salva pelo meu pai pela primeira vez!
Tempos difíceis para quem vivia naqueles confins, sem direito a médico e muito menos a nenhuma ajuda contraceptiva. Resistir ao belo pai que ela me dera, não devia ser fácil, mas de qualquer forma, tive que guerrear ferrenhamente.
Agora éramos cinco, vivendo a emoção, da espera por nossas necessidades básicas, que chegava pelo ar vez ou outra. Quando não enroscava nas copas das árvores mais altas, éramos providos de munições, alimentos, medicamentos e até livros. Mas nas entre safras das provisões, lá estava a minha mãe guerreira, se virando como podia. Era lá na tribo que ela aprendia como nos cuidar. Afinal não se ouvia dizer que os Ticunas morressem de fome. A floresta de tudo abastecia. Tinha lá uma bebida que era engrossada com banana secada ao sol, e depois socada, que adorávamos.
Até na luta contra mais de duas malárias, foi a pajelança Ticuna que curou o meu pai. Zéquinha, era amado pelos índios, com os quais falava o Tupi, e era chamado de irmão. Não perdia uma festa na tribo. Até os seus últimos dias, carregou um certo patuá, que ganhou de uma índia anciã, para ter o corpo fechado contra, projéteis. Escapou de várias situações que conto um outro dia.
Minha mãe era esbelta e muito bonita, admirada por todos, por sua alegria, garra, e dotes culinários. Fazia uma caldeirada de tartaruga como ninguém. Pescava, caçava, e tinha uma habilidade com armas de fogo, de causar inveja aos homens fardados de verde oliva. A sua adaptação à selva, não devia ser estranhada, afinal ela tinha lá seu histórico pantaneiro mato-grossense. Sua pele e cabelo em nada diferia dos irmãos Ticunas.
A vida corria no mesmo ritmo das águas do Solimões.
Longos eram os dias e também as noites a espera de que a missão fronteirística, acabasse e pudéssemos deixar o Estirão do Equador, rumo a outras aventuras.
Nossa casa era rústica, toda feita de madeira aparelhada ali mesmo, pelos próprios militares. Uma vila de umas seis palafitas, enfileiradas e idênticas, todas mobiliadas com caixotes empilhados. Eu tinha um engradado, chamado de berço. Como pagem, o Pindoba, um jovem e amável Ticuna, pronto para trucidar, qualquer um que ameaçasse a nossa segurança. Esperto, por vezes se embrenhava na mata, e voltava trazendo consigo, caça e muito mel. Rondava a nossa casa dia e noite, com direito a dormir embaixo da palafita, sujeito à realidade da mata e também aos seus mistérios. Eram muitos contados pelos Ticunas.
Pindoba já era tão nosso, que poucas vezes ia à sua tribo. Conta a minha mãe, que até ela tinha medo dele, pois ao menor gemido que ele ouvisse de quaisquer uma de nós, ficava enlouquecido. Grande parceiro dos militares para as caçadas e pescarias, e não poupava minhas irmãs mais velhas das suas iguarias, algumas cruas. Já sabiam apreciar carnes exóticas, como cobra, javali e tantos outros tipos.
Noites enluaradas se passaram, ao som de belas canções tocadas em velhos pinhos, até o dia que chegou a manhã, em que ouvimos o som do Catalina pousando no Solimões. Sua chegada trouxe um momento ambíguo de alegria e dor, com direito a nada como bagagem. Deveríamos então partir.
Minha mãe trazia em sua mão um lenço, que seria o sinal ao sobrevoarmos, para que o Pindoba aos prantos, permitisse que adentrassem a nossa humilde casa, e dividissem nossos pertences.
Soubemos muito mais tarde, que somente semanas depois o fizera, ficando ali plantado, até decidir se embrenhar na mata e voltar muito tempo depois.
Nosso destino…o Brasil.
AF

Continua…qualquer dia

4 Replies

  • Gina
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    Esta vida interessante mas difícil que vcs viveram justifica alguns procedimentos da sua mãe. Eu, fraca como sou, teria perdido o amor da minha vida… Sou acomodada e não conseguiria viver esta situação. Valeu pra vcs esta experiência de SABER VIVER e unir a família. Lindo texto.

  • ORIPES AMANCIO FRANCO
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    Maravilhosa história de vida… As dificuldades e a luta pela sobrevivência são compartilhadas por todos que não nasceram em berço de ouro… Parabéns por haver vencido esta etapa tão difícil…

    • Arilmey Freitas
      Responder

      Oi amigo! O prazer de viver uma vida cheia de aventuras, como filha de um militar de fronteira, é realmente uma história digna de ser dividida com os amigos. E penso que lutaria muito novamente, só para viver tudo de novo! Foi tudo sem muita rotina, e cheio de muitas emoções. A situação inusitada do Amazonas eu ouço contar, porque saí de lá ainda bebê. O berço era de ouro, mas fronteira é fronteira, e para os fortes! Os militares para essas missões eram escolhodos a dedo!
      Beijos e obrigada por seu comentário.

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