Meu Fusca, Ghost!

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O Fusca ofusca! Ainda me lembro do meu primeiro Fusca, branco, e ele parecia ter alma. Era gênioso, e quando séi lá o que acontecia, ele simplesmente parava, o mecanico chegava e não encontrava nada. O cara de pau simplesmente saía andando. E tinha o câmbio, que eu tinha que pegar com muito carinho, porque senão, saia na mão todas as vezes que era usada a segunda. Só na minha mão! Era um velho engraçado mas valente. Vivi com ele muitos bons momentos, como viagens de Brasília para muitos lugares distantes, acampamos, ficamos juntos por horas ouvindo o som da cachoeira de Itiquira, lá em Formosa no Goiás.
Acho que meu Fusca era fêmea, e tentava jogar pra fora todas as mulheres que sentavam ao meu lado. Era um tal de abrir a porta do nada…mas os meninos não corriam o menor risco, nem mesmo nas melhores curvas. Éramos espectadores assíduos das largadas dos pegas do Caseb. Ghost não conseguia participar do evento, por ser ancião.
Certa vez, Maria Célia, uma amiga que só tinha um camelo, conhecido também como bicicleta, me pediu o Ghost emprestado para ir ao encontro de um pretenso namorado. Para a minha certeza, foram à Prainha, que era o motel a céu aberto de Brasília. Todos os jovens da minha época passaram por lá, era lindo quando íamos chegando, e de longe víamos aquela quantidade enorme de Fuscas e Brasílias, sacolejando com todos os vidros embaçados, às margens do Lago Paranoá. Em Brasília não existia motel, e aquele era o point preferido para namorar. Bem, Maria Célia, escolheu ficar bem perto da agua. Eu não sei até hoje se ela esqueceu de puxar o freio de mão, ou se por mais uma malcriação, Ghost tentou afogar os dois. Quase me arrumou um incidente internacional, pois o moçoilo atendia pelo nome de Panayothis. Pensem na primeira página do Correio Brasiliense. DIPLOMATA GREGO, MORTO AFOGADO EM UM FUSCA SESSENTA E TRÊS. Acho que aquele monte de lata queria ser famoso.
Eram muitas as ofertas tentadoras que eu recebia no velhinho, mas era o nosso momento juntos, e precisávamos desgastar o relacionamento senão, nada feito. Então seguíamos. Muitos convites eu recusava, para festas, e aquelas galinhadas maravilhosas com muita música e dança, porque era um risco muito grande ter que amanhecer o dia parada em uma estradinha, e tendo como café da manhã, cajuzinhos selvagens. Eu não tinha a menor confiança naquelas peças e uma correia, que ele tinha como motor. Pareciam mais umas tampas das panelas lá da cozinha de casa. Meu amor era ambíguo, por passar muita raiva, mas também viver verdadeiros momentos heróicos com meu fusca. Fizemos bate e volta no Rio de Janeiro, sem que ele tentasse nada contra mim, atravessamos atoleiros, ajudamos a desatolar, fizemos umas trinta viagens carregados de móveis para ajudar na mudança da Maria Célia entre tantos outros eventos.
Escapamos certa vez de uma tragédia juntos. Resolvi acampar na parte baixa do Salto de Itiquira, que tem mais de cento e sessenta metros de altura. Era frequente nos finais de semana ficar lotado de barracas e escoteiros. O visual era único, porque o céu do cerrado tem luz própria. E eu amava ficar lá, olhando as estrelas e ouvindo um certo programa de rádio que era de São Paulo, e só lá eu conseguia a sintonia. Mas naquele sábado tinham apenas uma meia dúzia de barracas , e eu tentei por umas duas horas montar a minha. Foi em vão, porque faltavam montantes que eu havia esquecido. Bem, o jeito foi ir para Formosa e pedir hospedagem na casa do finado Junior Pilomia e Glórinha. Que Deus o tenha em sua companhia. Aproveitamos aquela noite pra conversar, reunir alguns amigos de Formosa, como o Zé Vaca, que era muito conhecido, por doar uma vaca para cada quermesse da região, ele tinha muitas namoradas. A cada encontro era uma diferente. Tião Badu, respeitadíssimo…qualquer diferença e ele resolvia com um trinta e oito. Era o Goiás, glamouroso, terra de homens e mulheres valentes.
Bem começou a chover, e não tardou a chegar a informação de que, a chuva forte que caíra na cabeceira do rio, formou uma tromba d’agua que, quando chegou no salto…arrastou todas as barracas. Nenhum sobrevivente. A noticia me abalou fortemente, mas acreditei que o destino conspirou a meu favor.
Frequentamos por muitas vezes as delegacias de Brasília, hora por excesso de velocidade, acreditem…hora porque a placa do Ghost simplesmente desaparecia, ou roubavam ou ele as jogava fora. E pra explicar isso? Agora que ele era vingativo eu não tenho dúvidas. Em um domingo lá no Beirute, SQS 109, eu estacionei dentro da quadra, e junto com muitos amigos tomamos todas, lá pelas tantas resolvi ir embora, e meu teor alcoólico não me ajudou a localizar o meu Ghost, pensei ter ficado invisível! Juro. Não tínhamos esses alarmes sonoros localizadores, não tínhamos nem alarmes. Então tomei o caminho para casa a pé. No outro dia lá estava ele me esperando… e juntos, esperamos o guincho porque o danado, resolveu não dar nem sinal de vida.
Ghost era conhecido e respeitado, mas também reconhecido…e isso para mim era uma tragédia. Para quaisquer lugares que eu fosse, não passava desapercebida. É o Ghost da Morena. Todo cuidado era pouco.
Mas nos amávamos, e amávamos as loucuras que fazíamos juntos, amávamos o parque da cidade, a Br 40, o Drive In do autódromo, enfim… Fomos muito cúmplices enquanto a nossa relação durou. Trocamos muitos carinhos do nosso jeito. Penso muito nele até hoje. Foram muitas histórias vividas de contrariedades e de amor. Mais de amor!
Hoje eu procuro o Ghost e não o encontro, já tentei de tudo e nenhuma informação. Todos os velhinhos que encontro, mesmo de outra cor, tenho a esperança de localizar um pedacinho branco, que revele a sua identidade. Disseram no Detran de Brasília, que talvez tenha virado desmanche. Isso me dói o peito e me faz lamentar a sua troca por um carro moderno, e não tê-lo apenas aposentado!
Perdão Ghost!
AF

Será o meu Ghost?
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4 Replies

  • Fransmey
    Responder

    Amei o texto mommy!
    Relembrar é viver!!

    Viva o ghost!

    Beijocas

  • Marlene monturil
    Responder

    Eu tb adorei !!!
    Me fez relebrar alguns episodios muito engracados, de quando eu andava com a minha amiga Monica Scaramboni, no fuscao dela verde azeitona!
    Ela sempre foi muito boa de roda! Quando guiava o bicho verde , ele parecia uma Ferrari… mas isso quando nao faltava gasolina kkkkkk o quando o bichinho nao deixava a gente a pe nas estradas de Taguatinga kkkkkkk
    Eita tempos bons aqueles… 😀 😀
    Mey, acho que a Moniquinha iria adorar ler esse texto.

    Valeu ! 😉

  • Maria Alzira
    Responder

    Lembrei do meu. Tive um também. Aliás, o meu primeiro carro. Comprado com o suor do meu trabalho. Lá pelos idos dos anos 70…
    São ótimas suas histórias!!!
    Bjjjj

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