POEMO, AO OCASO…

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Já são quase dezoito horas, e depois de algumas realizações, sonhos por novos caminhos, e conclusão dos meus hábitos diurnos, corro para um ponto bem alto. De um lado aprecio o que resta da minha sombra, e do outro contemplo o astro rei, mergulhando no horizonte. Sempre fui apaixonada pelo ocaso. Momento que me inspira, que me faz sonhar, e que na tentativa de me elucidar, me transformo em poetiza. Rabisco muitas poesias sem importância. Engaveto todas, são inúteis porque só falam de mim, e nunca foram escritas com a intenção de platéia ou auditório, são modestas e com seus dias contados, até a próxima faxina. É démodé essa atividade linguística, penso. Mas insisto em rabiscá-las. Escrevinhar…enfrento essa minha insistência, e sempre saio derrotada, por sua inerência ao meu ser.
Então tomo o que encontro pela frente, como instrumento de escrita e faço de tudo um tema. Desde o primeiro som ouvido lá no Estirão do Equador, até esse instante em que desejo que a minha escolha…não encolha.
Observo atentamente o ocaso e viajo por entre entregas e arrependimentos, tristezas esporádicas, questionamentos jamais respondidos, esperas que estimulam a sobrevivência. Como se por muitos séculos ou milênios eu estivesse aqui, nessas mesmas dezoito horas do dia, todos os dias a escrever minhas poesias, sem cronologia, em papéis muitas vezes rasgados e surrados, que terão o mesmo destino em algum fundo de gaveta quase nunca aberta, ou a chama de uma vela que os queimará. Eles não farão nenhuma falta…eu nunca os releio.
Santa involuntária tentativa de não extinguir minhas memórias cálidas, porém não vitimas de criticas hipócritas, julgamentos alheios. Nelas guardo os meus segredos das noites mortas, venenos da alma, combustões hormonais, desejos e amores.
Inútil é tentar entender o que me traz sempre de volta ao ocaso. Apenas venho…com um largo sorriso e a certeza de que versos serão soprados aos meus ouvidos, que velhas imagens se misturarão a vermelhidão do céu. E em meio às nuvens quase púrpuras, vejo flores, pássaros, rostos e gigantes. É mágico.
Os pensamentos se transformam em linhas harmoniosas, rimadas, pobres ou enriquecidas, não importa, são as traduções das minhas ilusões. Nelas ponho meu sorriso, minhas lágrimas, minha admiração e meu espanto. Encanto…brinco de rabiscar. Não quero as asas da minha inspiração cortadas, e me entregar à rebeldia dos que registram tudo em pedras.
Poemo, rabisco no ar, componho e descomponho, palavras escritas apenas para o meu olhar.
Sinto a brisa do crepúsculo, com sua coloração cheia de indecisões e ternura. Ele é excitante. Traz consigo a paz negra, e a recordação do silêncio da sua sinfonia, misturada aos cantos das corujas.
Sob um céu esboçando suas primeiras estrelas, cerzidas a clarões róseos no horizonte, torno a casa, levando mais algumas solenes lembranças da minha vida, escrita em versos para serem rasgados ou queimados, dando espaço para um novo caso contado no próximo ocaso.
AF

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