SAUDOSA CANOA

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Aprendi a remar, lá na pequena Cáceres, a Pricesinha do Paraguai, e foi em uma legítima canoa de um pau só, disputada a tapas com um primo querido, que para um índio só faltava andar nu ou usar algumas penas…pobre infeliz se perdeu nas drogas. Ás vezes sem remo, eu usava uma velha vassoura da casa da minha avó, mas nada me impedia de remar horas a favor, e horas contra a correnteza. Sem desenhos do rio, mapas, cartas de navegação e nem mesmo um rabisco, nada afinal para me ajudar naquelas águas correntes, cheia de pequenos braços, em meio ao pantanal, o qual eu olhava e era olhada, sentia e era sentida, brincava e era um brinquedo.
Remava, em movimentos eufóricos que iam deixando tudo pra trás, devagarinho…até parecer que o magestoso colorido da água, se misturava aos sonhos e saudades. Não penso que seja pecaminoso sentir saudade, daquelas que dilaceram, que são infindáveis, grandiosas e infinitas.
Sinto uma falta egoísta, quase materializada de tudo o que já me fez demasiadamente feliz.
Seguramente remar para a frente é mais vantajoso, salvo alguns momentos em que é preciso mudar o curso, ou até dar duas remadas para trás para então seguir remando em frente. Amplio os meus sonhos e venço os desalentos, olhando a quantidade de curvas na obrigação da escolha, sou bem parecida com elas…esperançosa a cada novo horizonte.
Na trajetória da vida, vou remando no compasso, a favor da correnteza e buscando um sentido, sempre enxergando um horizonte majestoso e bem mais colorido, do que conhecera até então.
Extraordinário é sentir que, essa missão importante e única, haverá sempre que ser bem executada, com serenidade, concentração e dedicação.
Pondero bastante ao me decidir qual o braço seguir, pois sou eu que vou carregar o peso das escolhas que fizer. Remo devagar. A minha escolha é seguramente muito mais importante do que o tempo, com o qual ainda posso contar.
Me esforço pra remar muito, juntando tudo o que for preciso e transformando em coragem, força, porque a minha viagem não é à toa e nem é furada a minha canoa.
Sequer procuro um ancoradouro, não vou fraquejar, e se tenho que optar por uma curva e um tempo.
Então decido pelo aqui e agora.
AF

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