TIRANDO LEITE DE PEDRA

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Perseguida, vulnerável e observada, é assim que ando me sentindo. Sequer me incomodo com a multidão desolada que passa por mim, e seus olhares desempregados, desacreditados. Mas estão lá.
Não é menos desassossegador chegar em casa, abrir a porta e encontrar tantas contas misturadas ao desespero impresso dos fabricantes, comerciantes, construtores…
Além da tentativa inútil de relaxar os massacrados músculos, ainda tenho que socorrer meus tímpanos violados pelos arrastões da chinfrineira do andar de cima.
O que fiz de errado me questiono. Porque não consegui a tão sonhada vida leve, para ao invés disso viver com náuseas e neuroses. Nostálgica é o que sou, e posso jurar que viveria muito bem à luz de velas, um bom som de viola, e compromissos feitos e firmados pelos fios dos bigodes.
Mas ledo engano o meu, que pensei ser possível buscar certa estabilidade nas proximidades sexagenárias, vou ter que me esticar e muito ainda no meio dos engarrafamentos, da poluição e sala de espera de terapia. Pareço mais um cachorro girando no eixo, tentando morder o próprio rabo. Sou merecedora da idiossincrasia e expectativa que chega a um milhão de quilômetros por segundo, trazendo promessas cheias de vaidade que jamais acontecerão, e tragédias que quase me convencem a comer liofilizados no espaço em detrimento das mais finas iguarias terráqueas.
Vítima é o que sou das frases feitas, verbos hostilizados prometendo estabilidade, e eterna cobrança da minha civilidade em forma de impostos. Já nem lamento mais perceber que os jovens nunca ouviram falar de Camões, afinal pra que inundar o cérebro de informações, quando o modelo de líder expressa uma verdadeira diarréia de consoantes, misturadas a mentiras berradas por um palhaço e aplaudidas por uma medusa, com tantos braços que esvaziam uma nação.
Vivo fragilizada, olhando para o que Deus me deu e me preocupando em ter que raspar o tacho pra sobreviver, porque por todos os lados me rodeia a inércia, acompanhada de um pseudo dinheiro que muito ou pouco, mal chega e já tem seu destino traçado.
Busco entendimento e respostas com frieza e calculismo…cruelmente chegam em forma de estatutos e imagens de cifrões. Zapeio…quanta inutilidade que sempre acaba em sexo ou violência. Então navego entre enlatados e concursos, na espera de que algumas regras elementares de decência nos unam, e que unidos destruamos a rainha e seu reino de trapaças.
Tentar arrancar a repulsa do meu ser, é como mostrar um Monet a um cego nato.
Eu represento a própria imagem do indíviduo enojado pelas migalhas que parecem querer nos deixar, e que persistente levanta a cabeça, esfrega as mãos e TIRA LEITE DE PEDRA!
AF

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