Viva o Cumulus Nimbus

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As aventuras só são assim chamadas, quando nem tudo dá lá muito certo. Quando de alguma forma, somos marcados por fatos ou acontecimentos, que não estavam nos planos.
Nós não temos o dom para adivinharmos se tudo dará certo em uma viagem, porem está em nossas mãos dar-lhe conteúdo. Sempre quis me livrar da inércia da minha futura velhice, sem nenhuma aventura ou incidente feliz para me recordar.
Traduzo aventura como renovação do ar, como livramento de acumulo de estresse, como bateria para a alma.
Destino: Caldas Novas, Goiás. Um desejo louco por aqueles banhos, em suas aguas quentes.
Minha parceira era uma valente XLX 250, que sempre tentava quebrar o meu pé, ricocheteando seu pedal com muita violência na hora do quick.
Deixei Brasília certa de uma viagem bem cansativa, mas eu contava com a informação, provavelmente segura, de que o tempo seria bom. O serviço de meteorologia não costumava errar…
Tudo corria muito bem, e eu só parava para abastecer, por preocupação com o horário. Provavelmente chegaria lá pela uma da madrugada seguinte.
Mas tudo foi literalmente por agua abaixo, quando de repente vi entrar um Cumulus Nimbus, aquele terror que vem dos céus. É um monstro sobre as nossas cabeças, cuspindo raios, trovões e muita chuva.
Quase sem acreditar que chegaria viva a algum lugar, segui bem devagar, desafiando todas as leis de pilotagem. Não enxergava um palmo a minha frente.
Agradeci a Deus a chegada em um pequeno lugarejo próximo a Morrinhos. As portas todas fechadas me faziam sentir em um lugar abandonado, mas ouvi o som de uma bigorna em pleno uso. Segui a direção guiada unicamente pela intuição, e logo encontrei o forjador de ferraduras do lugarejo. Um homem acerca de uns setenta anos, baixo e forte. Me apresentei à aquele senhor, completamente espantado e que foi logo me avisando não haver nenhuma hospedaria no local.
Diante da situação, nada mais me restava a não ser estreitar imediatamente a amizade. Senhor? Arnaldo, ele respondeu. Esse era o nome do irmão do meu pai. Mas quando eu lhe contei, o máximo que recebi foi um olhar deconfiado.
Então parti para o apêlo, fazendo com que aquele homem entendesse o meu total desespero, por cansasso e total falta de condições de prosseguir a minha viagem.
O bom senhor disse que eu poderia esperar a chuva passar em sua casa.
Nos dirigimos à sua humilde tapera, a uns trinta metros da forja. Eram dois cômodos. Lá encontramos sua esposa, a dona Quirina, que logo tratou de preparar um caldo quente, enquanto tirei as roupas molhadas.
Na casa havia um quarto e a cozinha, com um fogão a lenha, uma pequena mesa, e um tablado de madeira em cima de algumas latas. Entendi que aquela seria a minha cama, sabedora que era da quantidade de agua que aquele CB ainda tinha para derramar.
Enquanto eu me aquecia com com o caldo, que tinha um sabor delicioso, e lembrava uma canja com um toque de pequi e gueiroba, eles me faziam muitas perguntas.
Estavam curiosos, e preocupados talvez, afinal eu era uma estranha em seu lar, e eu….imaginava como seria a reação dos dois quando percebessem que eu não poderia seguir a viagem e que precisaria passar a noite ali.
Comecei, falando sobre Brasília, como eu vivia, e que aquela era uma nuvem especial, que pode ter até vinte nove quilômetros de altura, e que lá dentro tinham, gotas d’água, cristais de gelo, gotas superesfriadas, flocos de neve, granizo de variados tamanhos e… raios e trovões.
Os dois se olhavam espantados e eu seguia: Senhor Arnaldo, lá em cima tem tantos ventos, que cria um formato nessa nuvem parecido com a sua bigorna, e muitas vezes parece uma explosão atômica.
Nesse instante, ele olhou para dona Quirina e decidiu o meu momentâneo destino.
Quirina arruma a cama (tablado). A moça não pode sair nessa chuva e nesse escuro.
Senti de imediato um frio na espinha dorsal, experimentando uma mistura de surpresa, com felicidade e medo. Mas tinha feito amigos. A noite foi longa e desconfortável o suficiente, para que eu fizesse nascer um profundo amor pelos meus humildes anfitriões.
Seja do jeito que for e como for, mesmo não compreendendo ou entendendo, alguém sempre lhe estenderá a mão.
Minha gratidão, ao serviço de meteorologia que errou…
AF

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2 Replies

  • Maria Angela
    Responder

    Uma aventura e tanto!
    O bom é a forma como a vida nos surpreende,colocando em nosso caminho situações e pessoas que passam rapidamente por nós,mas deixam gratas lembranças.
    Boa semana ,Mey.Bjs

  • Arilmey
    Responder

    Por muito tempo visitei o casal, e sempre que eu ia eles pediam para eu falar sobre motos e nuvens kkkk. Mas vim pra Sampa e perdi o contato. Beijos amiga.

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