MEMÓRIAS FRIAS

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Caminho por Gliwice, Polônia, com passos brandos em meio a uma paisagem branca que guarda olhares perdidos e lembranças dos mais de cem anos de inexistência e esquecimento. Olhares muito antigos me fitam sob excesso de peles rugosas, me fazendo parecer rara. Traduzem em lânguidas faces, as identidades roubadas pelos que lhes tiraram até as personalidades. Não queriam o conflito dos normais com as convenções burguesas, e nem estavam predestinados a tanta violência.
Por toda parte, memórias em formas diversas de metal ou pedra que perpetuam as traições, se misturam a crença incansável e explícita, representada por belas igrejas com suas cruzes e Cristos. Vou da náusea à lembrança de que tenho alma.
Olho através de seus olhos o velho contorno da saudade edificada,  tão detalhada em riquezas arquitetônicas , misturada ao novo que cheira a perdão e agradecimento pela devolução de tudo o que lhes fôra roubado. Tempo e paz.
Ambiguidades que tornam os meus dias mais curtos e minhas noites intermináveis e reflexivas. Absorta em pensamentos onde vagueio por resíduos de uma história que me traz o sentimento de incredulidade, onde todos os atos de perdão me parecem ocos e sem a menor sinceridade. Parecem amar ao mesmo tempo o célebre e o torturador.
Andar por essas ruas é como circular por labirintos repletos de espelhos mágicos, onde a realidade se confunde com as mais variadas formas, lugar de língua estranha, onde as consoantes se juntam aos montes, e por parecer com sua história, são cortadas ao meio.
Jovens sorriem, inventam a vida, se colorem, parecem sorrir um sorriso de resgate, de qualquer bobagem, como quem desobedece ao próprio corpo e a sua memória.
Quantos sonhos cabem nesses jovens olhares, que herdaram dos pais e avós, a resistência ao ateísmo, e continuaram a crer na busca de um apoio invisível.
Mal abro os lábios tentando falar, e frequentemente a negação está pronta, parece que não querem perder uma ocasião sequer de negar. Talvez eu seja antipática, ou é a mim que negam.
Resmungo…continuo a caminhar, sei que negando me confessam subliminarmente, não se importarem com os testemunhos materiais que procuro. A noite não tarda a chegar no inverno, aperto o passo, me esforço em busca da distância de sentimentos perversos, e no maior entendimento e compreensão desfruto a minha amargura e solidão.
AF

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